sexta-feira , setembro 21 2018

Como ajustar o "takt" para, sem demitir, manter a produtividade

Uma empresa industrial vinha conquistando significativos ganhos de produtividade nos últimos anos. Graças à disseminação de várias ferramentas de gestão, a produção teve melhorias substanciais em lead time, qualidade, eficiência, entrega etc. A companhia conseguira crescer de forma sustentada.

Porém, a crise atual atingiu dramaticamente a empresa. O sucesso recente da organização não conseguiu imunizá-la das dificuldades atuais. Nos primeiros meses deste ano, houve uma queda de cerca de 30% de seu mercado e de seu volume de produção.

Reconhecendo a importância de sua mão de obra e tendo feito substanciais investimentos em sua qualificação nesses anos de melhorias substanciais, a companhia fugiu da decisão fácil de demitir pessoal. Com isso, acreditava estar preparada para a recuperação dos negócios e para continuar no esforço de engajar e envolver seus colaboradores.

Nesse contexto, a reação da empresa à queda nos negócios e ao pior desempenho financeiro tem sido focalizada em vários pontos. Por exemplo, na ampliação das exportações, no aumento do conteúdo interno, como a redução das compras nacionais e de itens importantes, no lançamento de novos produtos etc

Isso tudo irá requerer certo tempo de ajustes. A companhia parece reconhecer que os custos mais elevados de mão de obra nessa travessia seriam compensados na nova fase de expansão que se seguiria.

Entretanto, a decisão da empresa de manter o seu quadro de pessoal criara um potencial problema.

Em uma volta pela fábrica, notei que havia muita gente sobrando em suas linhas de montagem e células de produção. Sem surpresa, pois, como vimos, a organização não demitiu ninguém.

Um exame mais atento, porém, mostrou que diversas inciativas que foram importantes para garantir esses ganhos conquistados antes da crise tinham sido esquecidas e abandonadas.

Na medida em que a demanda cai, o tempo takt sobe, mantendo-se o mesmo tempo disponível de trabalho. Lembrando que o takt é calculado pela divisão do tempo de trabalho disponível pela demanda. O takt, palavra alemã, representa o ritmo no qual devemos produzir.

Assim, para alguns itens da empresa, o tempo takt mudou de 14 minutos para 18 minutos. Isso significa que a companhia precisaria, agora, manufaturar um produto a cada 18 minutos não mais a cada 14 minutos. O ritmo, então, diminuiu.

Assim, mantendo os mesmo equipamentos e tecnologia, seriam necessários menos trabalho e menos trabalhadores para produzir. A empresa, então, precisaria ajustar o conteúdo do trabalho e o número de colaboradores requeridos para essa nova necessidade.

Para evitar perdas de produtividade era essencial que, com a mudança na demanda e, portanto, no takt, ocorresse uma mudança no conteúdo do trabalho, para se utilizar menos pessoas, sem demissões.

Se a companhia não fizesse esse ajuste, as mesmas pessoas utilizadas antes realizariam menos trabalho, trabalhariam em um ritmo menor e os ganhos de produtividade se perderiam.

Embora os colaboradores excedentes não tenham sido cortados, não deveríamos permitir que os níveis de desempenho voltassem aos níveis anteriores, antes dos esforços de melhoria.

Às pessoas que sobram, devem ser dadas novas tarefas, que podem incluir desde fazer limpeza e arrumação, treinamento em qualificações necessárias, manutenção de máquinas e predial etc. Essas pessoas excedentes não podem interferir ou serem consideradas recursos utilizados na produção.

A eficiência do trabalho, assim, mantém-se. A produtividade pode até aumentar quando se faz os ajustes do conteúdo de trabalho ao novo tempo takt.

As mesmas situações e realidades podem acontecer em áreas e atividades administrativas. Com a queda no volume de negócios, o conteúdo de muitos trabalhos se reduz proporcionalmente.

Acomodar à nova demanda sem tirar pessoas do sistema produtivo não desafia as pessoas e a gestão. Acaba por criar uma atitude complacente

Os ajustes nos processos de trabalho na crise não devem abrir mão dos ganhos de produtividade conquistados. Podem até permitir melhorias de produtividade.

Não demitir não significa ser permissivo com a eficiência. O papel da liderança é manter um ambiente de busca por melhorias permanentes. No caso dessa empresa que visitei, não se deve permitir fazer 30% menos de volume com os mesmos recursos, quer sejam pessoas ou máquinas e equipamentos.

Os hábitos e as práticas saudáveis de conquistar e manter a eficiência, arduamente conquistados durante anos, precisam ser mantidos.

O respeito que a empresa mostrou aos colaboradores na “baixa”, não os demitindo, vai ajudar a criar um ambiente de eficiência e melhorias permanentes, contando para isso com o engajamento de todos. Mas se nesse período de transição se tolerar uma perda substancial de produtividade, o esforço requerido no momento de recuperação tenderá a ser maior.

É muito importante que a empresa não perca os ganhos de produtividade e eficiência, mesmo mantendo um excedente de mão de obra, para atravessar a crise.

(José Roberto Ferro é presidente do Lean Institute Brasil, escreve às terças-feiras)

Fonte: Época Negócios

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