quinta-feira , julho 19 2018

Bankoma: economia criativa e saber ancestral

Houve um tempo em que mãe de santo era praticamente uma instituição. Mãe Mirinha de Portão, por exemplo, fazia tudo no Terreiro São Jorge Filho da Gomeia, que ela construiu, em 1948, em Lauro de Freitas, na região metropolitana de Salvador (BA). Tudo e mais um pouco. “Era a parteira, a agência de emprego, a conselheira, a psicóloga, a médica, a que dava comida, a que pedia a construção do hospital, o asfaltamento das ruas”, enumera Mãe Lúcia, neta de Mãe Mirinha que assumiu a liderança do terreiro e o transformou, em 1995, na Associação São Jorge Filho da Gomeia.
O Ponto de Cultura Bankoma funciona ali desde 2005. No local, também estão o Museu Comunitário Mãe Mirinha de Portão, a Biblioteca Comunitária Mãe Mirinha de Portão, o espaço Kula Tecelagem e o Centro de Cidadania Digital. Cursos de percussão, fabricação de instrumentos, dança, corte e costura e estética afro são algumas das atividades oferecidas à comunidade. “As oficinas culminam no carnaval, quando o Bloco Afro Bankoma leva para a avenida tudo o que a gente trabalhou durante o ano: a música, a dança, a confecção de adereços, as roupas, a tecelagem, os instrumentos”, ressalta Mãe Lúcia.
A criação do bloco afro, ela conta, foi para dar voz à comunidade e mostrar o que é feito nas oficinas com as crianças, os jovens e os adultos ao longo do ano. Porque eles confeccionavam roupas e adereços, fabricavam instrumentos de percussão, aprendiam coreografias, aprendiam a tocar e cantar… e não tinham onde mostrar. “O carnaval é a nossa grande vitrine”, afirma. “Tanto que a gente faz dois desfiles: um com os jovens na avenida, em Salvador, e outro na comunidade, na Quarta-feira de Cinzas, para a criançada participar”, conta.
O bloco afro
São 3.500 foliões na avenida. Fora o pessoal da dança, da capoeira, os 100 quilombolas de Senhor do Bonfim (a 375 km de Salvador) e as baianas de vários terreiros que saem no bloco também. Na Quarta-feira de Cinzas, tudo se repete no bairro de Portão, em Lauro de Freitas. “Nesse dia, toda a comunidade se veste de Bankoma e vai pra rua. As crianças ficam naquela euforia. Elas adoram. Vai chegando o fim do ano, começam a perguntar: ‘Tia, cadê a minha roupa’? ‘Ainda demora, menino! (risos)”
O “esquenta” começa em novembro, com uma série de shows gratuitos no Pelourinho, no centro histórico de Salvador. Todas as quintas-feiras, de novembro a fevereiro, o Bloco Afro Bankoma faz sua temporada de ensaios na Praça Tereza Batista, com uma feira de música e gastronomia que inclui produtos feitos nas oficinas da Associação.
Esses shows, batizados de Encontros Mauanda Bankoma, contam com a participação de cantores convidados, como Carlinhos Brown e MV Bill. É com parcerias como essas – Brown, por exemplo, cedeu o estúdio para que eles gravassem agora o segundo CD do Bankoma – que a associação vai desenvolvendo suas atividades.
O início, no entanto, não foi nada fácil. “Como meu pai dizia, na Bahia não tem Senhor do Bom Princípio, só Senhor do Bonfim”, brinca Mãe Lúcia. “Então, como todo início, foi complicado, havia muita relutância. Diziam: ‘Ah, bloco afro…’ Porque tem muita gente ligada em bloco de trio, né? Mas graças às energias, ao universo, a gente conseguiu conquistar as pessoas. Hoje já dizem ‘eu sou Bankoma’. E isso não tem dinheiro que pague”.
Autoestima
A Associação São Jorge Filho da Gomeia foi fundada em 22 de abril de 1995. E o primeiro curso ali criado foi o de estética afro. “Foi muito no sentido da conscientização, porque a maioria tinha vergonha de andar com o cabelo preso, de usar um torço”, explica Mãe Lúcia. “Esse curso foi importante para a autoestima, para o sentir-se negro e sentir-se bonito. Hoje, a nossa comunidade tem outra cara. As meninas são todas rainhas. Quando vestem as roupas do bloco para dançar, então… Aí que ninguém pode com elas. Só vivenciando para entender. A gente dá roupa toda enfeitada e elas vão lá, com o próprio dinheiro, enfeitar mais (risos).”
Depois veio a oficina de capoeira, que resultou no Ponto de Cultura Bankoma. E o terreiro, que em 2004 se tornou patrimônio cultural do estado da Bahia, foi abrindo as portas para mais gente, para mais atividades. “Aqui ninguém faz catequese não. Pode ser de outra religião, ou não ter nenhuma”, enfatiza Mãe Lúcia, lembrando que a grande preocupação sempre foi tirar os meninos da situação de risco. Tem mãe que leva os filhos, tem criança que chega sem os pais. Tem umas que eles nunca viram antes e precisam descobrir onde moram, de onde vêm. “As crianças ficam batendo na grade: ‘Tia, vai ter aula hoje?’ Se o professor não vai, às vezes eu mesma dou aula, invento uma brincadeira, dou mingau. E eles ficam lá.”
Atualmente, o Pontinho de Cultura atende cerca de 30 crianças na faixa dos 6 aos 12 anos. São meninos e meninas que participam de aulas variadas, da dança à inclusão digital, e frequentam a Biblioteca Comunitária. Ali, além de atividades para estimular a leitura, como a contação de histórias, está sendo montado um acervo de livros específicos sobre a história do povo negro. Como diz Mãe Lúcia, “o lado bom da história, da nossa resistência, porque o mais comum é encontrar livros onde somos escravizados, subjugados”.
Patrimônio imaterial
O Museu Comunitário Mãe Mirinha de Portão também é “um bocadinho diferente” dos outros, já que não tem “só a parte das peças expostas” e envolve tudo o que acontece no terreiro e em seu entorno. Assim, a história da comunidade é parte do acervo, o samba de viola, as festas dos pescadores, os ternos de reis, as burrinhas… “A gente coloca os meninos para entrevistar os mais velhos, incentiva eles a ir à casa dos mestres para conversar, para ouvir suas histórias”, conta Mãe Lúcia, que foi uma das lideranças que ajudaram a construir a Lei Griô Nacional.
A Ação Griô conta com quatro mestres: um na pesca, uma na confecção de adereços, outra na tecelagem e outra na “erva” (nos saberes das folhas, dos chás). Eunice Santos Souza, a Dona Nice, também conhecida como “Véa”, é a artesã dos paramentos. Ela é quem pensa os adereços que a rainha do Afro Bankoma leva em suas indumentárias – e que transmite seus conhecimentos nas oficinas do Ponto de Cultura às novas gerações, incluindo a filha Elienice, griô aprendiz. Mãe e filha fundaram o Oju Omin, um centro de produção de artefatos criativos que tem atraído muitas jovens da comunidade.
O espaço Kula Tecelagem, por sua vez, atua como centro de referência do pano da costa, peça de significado religioso e social, fundamental na composição das roupas dos rituais de candomblé. E com o projeto Tecelagem de Tradição, artesãos são capacitados em oficinas variadas, com ênfase no repasse do saber, no inventário e no aperfeiçoamento de pontos, no aprimoramento de produtos, na gestão e na organização da produção. “Nossa cultura usa o pano para várias coisas, então a gente foi fazer o resgate do pano da costa, foi trabalhar com essa linha, que é mais fina, da linhagem banto”, explica Mãe Lúcia.
Faz-tudo
Foi com a missão de preservar a cultura afro-brasileira de origem banto que se criou a Associação São Jorge Filho da Gomeia. Também para regulamentar um trabalho que na prática existia desde 1948. Mãe Mirinha de Portão (1924-1989) foi quem começou tudo isso, quando comprou o terreno na Avenida Queira Deus e ali construiu o terreiro. Filha de santo de Joãozinho da Gomeia (1914-1971), ela logo virou a faz-tudo da comunidade. Era quem fazia os curativos, os partos, os pedidos de emprego, de asfalto, de escola, de hospital etc.
Mãe Mirinha teve uma só filha, que não seguiu seus passos no candomblé, mas teve sete filhos, todos iniciados. Maria Lúcia de Santana Neves, a neta que assumiu a liderança do terreiro, adotou o nome de Mameto Kamurici como mãe de santo. É chamada também de Mãe Lúcia e de “tia” pela garotada. Ainda que não seja uma “instituição” como a avó – os tempos são outros –, ela corta um dobrado para seguir com os trabalhos na comunidade e manter as oficinas funcionando ao longo do ano.
“É difícil, é uma luta, mas a gente não desiste não”, afirma Mãe Lúcia. “Com ou sem dinheiro, a gente vai continuar fazendo as coisas. A gente não para porque não tem como. Porque são as coisas que estão no nosso coração, na nossa alma, na nossa forma de estar na vida. A gente não sabe fazer as coisas de outra forma. E é gratificante ver a comunidade junto, os jovens, todo mundo ali ao redor, a força que isso tem.”
Teresa Albuquerque
Programa Ibercultura Viva

Fonte: Cultura.gov

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