sábado , junho 23 2018

Herança de família conta em objetos um pouco da vida de mulher revolucionária

Lídia Baís foi provavelmente a primeira artista transgressora de Campo Grande. Pintora, compositora e escritora, ela nasceu em 1900 e teve a vida cheia de mistérios e contos desencontrados. Viveu durante 85 anos, sem filhos ou marido, de quem anulou o casamento poucos dias após o enlace. Agora, novas peças desse quebra-cabeça começam a surgir por meio de óculos modernos e espelhados vindos da Europa ou discos com composições feitas por uma jovem cheia de sonhos.

Os materiais foram adquiridos pelo Sesc, que agora administra a Morada dos Baís e também o museu em homenagem a artista. Os objetos vieram da sobrinha-neta e afilhada de Lídia, Sandra Baís, que os recebeu como herança da família e achou justo que fossem destinados ao local. “Ela era irmã do meu avô e minha madrinha. Eu recebi como herança da minha mãe. Como o sonho da Lídia sempre foi fazer um museu, eu achei que seria melhor que os objetos ficassem lá até porque algumas coisas eram difíceis para que eu arrumasse”, afirma Sandra.

Ao todo, cem peças foram incluídas no acervo, entre elas uma cristaleira da década de 30 ou 40, além de utensílios de cozinha que Sandra garante que foram usados aqui, objetos pessoais de Lídia, como as luvas, óculos e cristais comprados na Europa.

“Esse material representa um pouco da Lídia Baís, a vida religiosa que ela tinha, como as bíblias que foram incluídas, a gente pode ver que são objetos da época, como perfume, óculos. Tudo remete a Europa, porque ela estudou, passou um tempo estudando fora do País”, afirma Kaio Felipe Ratier, 29 anos, instrutor de artes do Sesc.

Um dos problemas para se catalogar as obras de Lídia é a falta de fontes históricas e principalmente a despreocupação dela de incluir o ano em seus quadros. Na Morada dos Baís consta agora uma série de ilustrações feitas pela artista, mas sem nenhuma data. “Especula-se que ela tenha se dedicado as artes plásticas até 1939, quando o pai dela, Bernardo Franco Baís, foi atropelado pelo trem em frente a casa da família. Não sabemos ao certo. O que podemos afirmar é que Lídia teve influencia modernista e principalmente surrealista em suas obras”, acredita Kaio.

Lídia era a sétima filha de um total de nove herdeiros de Bernardo. Como a educação era prioridade para a família, a jovem chegou a estudar em vários internatos fora do País, como em Assunção, no Paraguai e na Europa. Por fim, passou uma temporada no Rio de Janeiro. Apaixonada pelo movimento modernista, ela se aproximou muito do estilo consagrado na época pelos intelectuais brasileiros.

Tem fama de ser mimada, detestar os internatos e ter permanecido virgem a ponto de conseguir anular o casamento. “Dizem que o marido dela teria gastado tudo um dia no jogo, o que a deixou irritada. A anulação ocorreu rapidamente. Para a época, na década de 40, deve ter sido um escândalo”, explica Andreia Simone Gomes da Silva, gerente do Sesc Cultura em Campo Grande.

Com o sonho de entrar para a história, Lídia desejava a todo custo construir um museu e chegou a pedir ajuda ao prefeito de São Paulo da época para possibilitar o sonho. Sem conseguir, escreveu um livro sob o pseudônimo de Maria Tereza Trindade, com o título “História de T. Lídia Baís”.

“Ela faleceu em 1985, praticamente enclausurada em casa. Dizem que na companhia de muitos gatos que ela alimentava. Mesmo assim diziam que era uma pessoa boa, que dava comida aos pobres e animais. Sabemos pouco sobre a personalidade dela, mas as histórias são muitas, sempre tem alguém quem para aqui e conta algo”, ressalta.

Na internet é possível encontrar trabalhos e antigas reportagens que mostram um pouco sobre a trajetória histórica de Lídia. É importante ressaltar que o lado religioso da artista foi forte durante anos e é possível ver isso em sua obra.

“Lídia era muito religiosa e teve contato com vários dogmas ao longo da vida, encerrando como católica. Dizem que ela entrava em transe durante alguns momentos e que nesse período inclusive teria feito as composições que nós temos agora”, explica Andreia.

Os discos ainda existem, mas infelizmente não podem ser reproduzidos. “Parece que em São Paulo é possível realizar a restauração, mas ainda não temos certeza”, aponta.

A religiosidade também aparece em outros pontos. “Em um dos quadros mais famosos da artista ela parece ao lado de Jesus Cristo na Santa Ceia, talvez por ingenuidade ou não. Nas ilustrações que conseguimos de um caderno dela e que está na nossa coleção ela primeiro representa o sexo nas figuras e um tempo depois os rasga. Não sabemos ao certo o que significa, mas parece uma ruptura”, explica Kaio.

Mesmo com tantas pontas soltas, Lídia com certeza deixou uma marca na cultura da cidade. Aos poucos, a frase que ela tanto gostava de dizer aos familiares incrédulos a define cada vez mais: “Por minha causa vocês vão ficar na história”.

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Fonte: Campo Grande News

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